Royal Winnipeg

Corps de ballet de Winnipeg

Mestre da Ópera-Comique, Jean Georges Noverre (1727-1810) propôs à dança um retorno à Natureza, alma, simplicidade. Termos esses que encontramos nas famosas páginas de “Lettres sur la Danse et sur les Ballets“. O belo, segundo Noverre, exige a razão, em vez da imbecilidade, o espírito, em vez de golpes de força, a expressão em vez de dificuldades técnicas, a graça, em vez de gracejos, o sentimento, em vez de rotinas de passos, o jogo característico da fisionomia, em vez de máscaras inexpressivas…

Separei este trecho, que acho bem interessante: “Eu admiro o dançarino-máquina, eu rendo justiça à sua força, à sua agilidade, mas ele não me faz sentir nenhuma emoção.  O ballet d’action*  é a arte de fazer passar, por meio da expressão em nossos movimentos (gestos e fisionomia), nosso sentimento e nossas paixões na alma aos espectadores. A ação não é outra coisa senão a pantomima, e esta segue a natureza em tudo. Ela está au-dessus** das regras e não pode ser ensinada”.

A reflexão sobre os escritos deste reformador da dança do séc. XVIII veio desaguar em nossa última aula, quando eu explicava sobre a busca da leveza e da interpretação pessoal na dança, durante um exercício de ports de bras (transporte de braços).

Noverre

Noverre levava seus discípulos às ruas para que estudassem os movimentos de seus contemporâneos, em vez de copiar os modos corteses.

Para iniciantes, os exercícios de ports de bras não possuem seqüências complexas, e as pernas executam poucos movimentos, tornando este um momento propício para maior exploração das qualidades expressivas de cada gesto.

Há de se tomar muito cuidado para não cair na armadilha dualista a que está preso o corpo cotidiano, e associar simplicidade com mediocridade. Acionar sentimentos internalizados e sufocados pelo dia-dia estressante e repetitivo requer um grande trabalho interno e necessita de muita concentração para ser realizado. E isto aparece de maneira clara no tônus muscular.

Buscando minha expansão no espaço, por meio da revelação deste sentimento, bícpes, tríceps, e toda a série de músculos que inserem na escápula como o peitoral menor, subescapular, rombóide, etc… são naturalmente requisitados, propriciando o fortalecimento dos braços e costas.

Este caminho aqui apontado pode ajudar os novatos à fugir dos maneirismos e de expressões forjadas à moda do professor. Não sei o que é pior, um grupo de alunas que tem a cara da professora, ou uma expressão blasé (a famosa cara de paisagem).

Coragem! Vamos abrir o baú, revirar todo tipo de sentimento e nos deixar levar para uma afinidade com a natureza… “E os Ballets tornar-se-ão Poemas” Noverre.

Referência:

MICHAILOWSKY, Pierre. A Dança e a Escola de Ballet. Rio de Janeiro: Departamento de imprensa Nacional, 1956.

*Ballet d’action: Traduz-se como ballet de ação, mas este termo é conhecido como ballet sem palavras faladas.

** Au-dessus: Literalmente quer dizer acima, porém neste texto Noverre quer dizer que a pantomima é uma arte que não comporta só o aprendizado de gestos.

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