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Bailarina executando exercício para desenvolvimento e manutenção do en dehors

Muito se tem discutido sobre a postura correta da bailarina no que diz respeito aos ossos e musculatura do quadril. Eu, como todas da minha geração escutei (às vezes aos berros): encaixe o quadril! Simplesmente isso. Fiquei anos à fio contraindo o músculo do glúteo, imprimindo uma força desnecessária e sem nehuma explicação lógica, tensionando um músculo sem necessidade. Os glúteos são músculos estabilizadores da bacia, se ficarem contraídos para manter o encaixe, vão prender as pernas. Porém de acordo com os professoras “old generation” com que estudei ainda na infância, essa contração ajudaria a obter o imprescindível en dehors.

Ok! vamos por partes: primeiro o que quer dizer encaixar o quadril? Para estes professores era fazer uma “rotação” dos ossos do quadril  empurrando o sacro para baixo e puxando o ilíaco pra cima, contraindo o músculo glúteo, os músculos abdominais, abrindo as costelas e projetando o tronco e o osso esterno para frente. Esta postura levou muitas bailarinas a desenvolver lordose, por conta da projeção exessiva do tronco. A coluna sempre busca uma compensação de peso para gerar equilíbrio ao nosso corpo, ou seja se expande demais para um lado pode saber que vai estar encurtando o outro.

Na minha opnião empurrar sacro e cócix para baixo ajuda a alongar as costas, o que proporciona mais equilíbrio, também é importante promover uma aproximação dos ísquíos, o que aciona a musculatura do assoalho pélvico e libera os músculos rotadores do fêmur. Costumo recomendar ainda o acionamento dos músculos piramidais (região do baixo ventre), sem projetar o tronco para frente.

Quadril

Quadril

De acordo com o fisioterapeuta José Luiz Melo, em entrevista à Kerch&Kerch News: A principal musculatura responsável pelo en dehors, esta localizada profundamente nos quadris, abaixo dos glúteos, ligando a cabeça do fêmur às bordas do sacro e parte interna da bacia, mantendo intima ligação com o conjunto de músculos do assoalho pélvico (musculatura que forra o fundo da bacia), esta musculatura do assoalho pélvico, ou perínio, por sua vez, tem como uma ação secundária, a verticalização do Sacro. Portanto, para a musculatura do en dehors exercer sua função com eficiência, precisa que o  sacro esteja estabilizado e ligeiramente verticalizado pela musculatura do assoalho pélvico e de uma bacia e coluna lombar estabilizados pelos  abdominais, podemos concluir então, que para um trabalho eficiente do en dehors, deverá haver uma sincronia entre estes grupos musculares”.

No entanto deixar o fortalecimento da musculatura abdominal ficar ao encargo do encaixe do quadril (retroversão pélvica), contração isométrica dessa musculatura, é insuficiente para a manutenção do equilíbrio entre esses dois importantes grupos musculares, mantenedores da coluna lombar.

Ainda de acordo com Melo, é através do treino de ativação dos abdominais, em especial o músculo transverso,  em conjunto com o acionamento  do assoalho pélvico, é que o bailarino obtém uma estabilização da bacia, e isto vai permitir que as pernas rodem em en dehors, de modo mais eficaz, e esta mesma estabilização da bacia pelos abdominais dará a sensação de maior leveza nas pernas nos développés.

abdominal

Músculos do abdome

Ou seja este trabalho dos abdominais, deve ser complementar nas aulas de ballet e existem diversas séries de exercícios desenvolvidas especialmente para quem faz ballet, menos repetitivas e mais fluídas, trabalhando com isometria, mas também com seqüências. Uma dica é dar uma olhada no Youtube nas séries de workout do New York Ballet. As músicas são lindas, as seqüências são apresentadas bem lentamente, e os corpos dos bailarinos e bailarinas (totalmente definidos) possibilita uma boa observação de que grupo muscular está sendo trabalhado. Recomendo.

Não se esqueçam ainda de trabalhar os dorsais, pois como já disse anteriormente o corpo está sempre buscando compensação para estabelecer equilíbrio, ou seja abdome forte pede costas igualmente fortalecidas.

Referências:

http://kercheekerchenews.wordpress.com/

Pé

Nomenclatura dos ossos dos pés

“Só quando descubro a gravidade, o chão, abre-se espaço para que o movimento crie raízes, seja mais profundo, como uma planta que só cresce a partir do contato íntimo com o solo. Só dessa forma surge a oposição, a resistência que vai abrindo espaço entre os ossos,  seguindo sua direção nas articulações. À medida que vou sentindo o solo, empurrando o chão, abro espaço para minhas projeções internas , individuais, que a medida que se expandem, me obrigam a uma projeção para o exterior”. É com este trecho do livro “A Dança” de Klauss Vianna, que abro este post destinado à importância do trabalho e colocação dos pés durante a aula.

Aprendi que os pés devem procurar se abrir no solo, como raízes profundas na terra. E os apoios estão concentrados em três pontos básicos: na região do Metatarsal I , Metatarsal V e no Calcâneo. O Cubóide também tem participação importante, pois ao imprimir peso nessa região, impedimos que o arco do pé caia para frente e acentua-se o en dehors. É o que muitos professores estão querendo explicar quando dizem: Use a borda externa do pé!

No dia a dia da sala de aula três ou quatro exercícios de nível básico proporcionam (quando bem executados) um excelente trabalho de fortalecimento e abertura das articulações dos pés. Para começar recomendo chegar um pouco antes do horário e massagear os pés. Para isso pode-se utilizar uma bolinha resistente, ou mesmo as mãos. Uma dica muito interessante é massagear e tentar ganhar mais espaço entre os Cuneiformes Medial, Intermédio, Lateral e Metatarsal V, seguindo pelos ossos Metatarsal, até a ponta dos dedos. Massagear o Calcâneo também ajuda a aquecer a região.

Trabalho de pé

Trabalho de articulação do pé para chegar às pontas

Normalmente no início das seqüências de chão trabalho exercício de flexão/extensão (ou flex and point como é chamado pelo método Royal) com rotação en dehor/en dedan e (claro) passagem pela meia-ponta. Já na barra e no centro battements tendus trabalham as articulações e exigem percepção sobre transferência de peso. Abro um parêntese para o mestre Klauss: Os ossos representam papel importante no sentido de controle e na posição de cada homem no mundo. Através deles cada um de nós  determina seu grau de segurança, buscando continuamente o ritmo do movimento. Mecânica, fisiológica e psicologicamente o corpo humano é compelido a lutar por equilíbrio”. Por isso os três pontos básico já especificados devem estar acionados durante este exercício, pois só assim será possível encontrar equilíbrio para realizar a transferência de peso.

Já os glissés e petit jetés auxiliam o trabalho de meia ponta/ponta, fortalecendo o cou de pied (colo de pé) e exigem maior elaboração sobre transferência de peso e uso do cubóide, visto que a passagens de uma posição à outra é feita de maneira mais rápida e enérgica. Creio que detalhes sobre cada um destes movimentos e de tantos outros, poderão ser melhor discutidos em um futuro post.

Ainda assim muitos bailarinos (alguns com anos de experiência em dança) deixam passar batido esse trabalho de pés, tão básico quanto feijão com arroz. Preocupados em realizar logo um grand jetté, pirouettes ou fouettés se esquecem dos pontos de apoio e apresentam movimentos “sujos” e imprecisos. Muitas vezes para realizar um salto a tensão (e atenção) é colocada no estiramento do músculo do pescoço. Mas e os pés? É justamente sua passagem pelo chão que vai proporcionar o impulso necessário. Sobre isso Klauss Vianna escreveu: “É preciso reconhecer o local do corpo onde surge a oposição a força que vem do solo: geralmente se situa em ponto em que nossa tensão é mais freqüente. Ombros, língua, mãos, boca, coluna cervical, diafragma. É nesse ponto de tensão que acabamos colocando nosso equilíbrio – quase nunca nos pés. (…) andamos em cima dos ombros, corremos com a língua: a força está sempre concentrada nas partes erradas. O pé também denuncia nossa relação com a vida, ao pisarmos brigando com o solo, ou ignorando-o, deslizando aéreos, indiferentes.”

Exercícios, estudo de anatomia, fisiologia, massagem. Pra que tudo isso? Para saber que temos pés! Isso ai! Quando trabalhamos os pés através de exercícios de sensibilização, toque, fortalecimento de articulações e músculos, ampliamos sua mobilidade. O esforço repercute sobre todo o corpo e descobrimos: Temos pés!

Referência:

VIANNA, Klauss. A Dança. São Paulo: Siciliano, 1990.